Entrevista com Márcio Nigro, idealizador e organizador da Virada da Mobilidade

Confira o bate-papo e fique por dentro das novidades preparadas para a 5ª edição da virada que acontece entre os dias 17 e 23 de setembro, em São Paulo

barba3Com programação voltada à conscientização da população em relação à mobilidade urbana e qualidade de vida na Cidade de São Paulo, a Virada da Mobilidade 2017 chega à sua 5ª edição com diversas atrações em diferentes pontos da capital. Durante uma semana, o público poderá participar de atividades lúdicas, exposições e palestras com autoridades em assuntos como mobilidade corporativa, empatia na cidade, tecnologia e inovação multimodal. Em entrevista especial, Márcio Nigro, idealizador e organizador da Virada da Mobilidade, compartilha com os leitores curiosidades sobre a edição deste ano e oferece insights interessantes sobre a importância do tema na agenda dos paulistanos.

Como surgiu a Virada da Mobilidade?

Márcio Nigro: A Virada da Mobilidade nasceu durante um almoço com André Palhano, fundador e organizador da Virada Sustentável. Na ocasião, eu, como idealizador do Caronetas – site de caronas que integra colaboradores de empresas e centros de forma segura, prática e gratuita –  percebi a necessidade de criar algo que incorporasse os interesses de todos os demais modais de transporte, olhando para o cidadão e para a empresa.

 O que é a Virada da Mobilidade?

A Virada da Mobilidade tem no seu DNA a multimodalidade, carregando o princípio de que nenhum modal de transporte, de forma isolada, pode ser tratado como o mais adequado a todos os percursos, em todos os horários e para qualquer bolso. Com essa base, convidamos usuários e empresas a conhecerem, refletirem e aplicarem esse conceito nas viagens diárias, usando a tecnologia como aliada.

“Modais de transporte”, o que é isso?

Modos de transporte: bicicleta, skate, patins, patinete, veículos elétricos, trens, metrô, ônibus, carro e carona, entre outros.

Por que multimodalidades?

A vida na cidade é muito dinâmica e em cada horário temos uma situação de tempo, conforto e custo para cada um dos modais disponíveis. A maioria de nós já veio de fábrica com um modal de transporte embutido: andar. Essa prática, além de fazer bem para a saúde e para a cidade, permite o acesso a todos os demais meios de transporte, em qualquer tempo – de bicicletas públicas a caronas ou a carros por aplicativos – com flexibilidade tanto na ida como na volta do trabalho. Por outro lado, vemos situações no trânsito e no transporte público que estimulam a reflexão: filas de congestionamento com motoristas solitários contracenando com ônibus lotados – muitas vezes seguidos de outros vazios. Se priorizarmos veículos de alta capacidade em vias de alta densidade – ou seja, as grandes avenidas e vias de ligação entre centros urbanos – veremos que sobram vias de baixa densidade onde há trafego somente em certos horários. Dessa forma, estimular o modal mais apropriado no início do trajeto não significa que o mesmo será o mais eficiente e apropriado até o final.

Quais são as novidades para a edição de 2017?

Em 2017 teremos a “Semana da empatia”, um grande evento de abertura e um novo formato no “Desafio Multimodal”. A abertura ocorrerá no domingo, 17/09, com o ALD Experience, que tem por objetivo trazer a experimentação prática de todos os modais de transporte de forma gratuita. Para este ano, o  Desafio Multimodal terá mais de 20 pontos de partida e a linha de chegada estará na Rua Joel Carlos Borges, onde o participante encontrará  uma rua completamente gramada e preparada para ser um centro de convivência para o pedestre. Durante a semana de 18 a 22 de setembro, também promoveremos a “Semana da Empatia”, na qual empresas participantes receberão informativos para estimular seus funcionários a priorizar um determinado modal por dia, substituindo um trecho de seus trajetos por esse modal: segunda-feira será o dia de usar as pernas; terça, o transporte publico; quarta-feira, os apps, táxi e carona; quinta-feira, a bike, e sexta-feira, ocasião do Dia Mundial Sem Carro, dia para utilizar todos os modais.

O que pretendem com a iniciativa?

Pretendemos mobilizar a sociedade – empresas, governo e usuários – em torno do planejamento do transporte individual e coletivo, de modo a repensar o que e mais adequado existe em cada bairro, em cada parte do trajeto. Convidamos todos a repensar os valores transversais de modalidade – saúde, desempenho, custo e sustentabilidade.

 Por que a reflexão acerca da mobilidade urbana é importante?

A maioria da população passa hoje mais tempo no carro ou no transporte do que curtindo os filhos ou a família. Uma simples reflexão sobre o tempo – que é somente um dos fatores a serem considerados – pode estimular o usuário a mudar de empresa ou de endereço. Outra situação muito presente é ouvir usuários reclamando de que não têm tempo para realizar exercícios físicos – entretanto, parar o carro ou descer do ônibus a uma distancia de 1km da empresa resolveria o problema. A reflexão é o primeiro passo para a transformação.

Qual diagnóstico você faz sobre mobilidade em São Paulo hoje? Há formas de reverter esse quadro? Como?

Acredito que todos percebem que o cenário está cada dia pior. Temos um aumento de ciclistas, mas ainda superado pelos kms de congestionamentos, e todos somos desafiados a reduzir o número de acidentes, atropelamentos e vítimas. Alguns aplicativos nos salvaram nos últimos anos de um cenário pior, pois indicam as vias que ainda estão livres, mas isso tende a saturar. Como mudar? Acho que o primeiro passo da mudança da sociedade está no indivíduo. O governo pode e deve agir de forma planejada, pois concentra informações e poder de ação em escala. Entretanto, o cidadão e a empresa consomem e constroem toda a logística da cidade

Conscientizar os cidadãos sobre a responsabilidade e a capacidade de escolha de um determinado meio de locomoção esbarra, logicamente, em questões de infraestrutura. De que forma a ação pretende chamar a atenção de governos e instituições?

Uma boa pergunta. As empresas são os verdadeiros polos geradores de tráfego. Sem empresa, não há trabalho; sem trabalho, não há necessidade de deslocamento. Quando uma empresa se instala em determinado local, ela atrai – ou desloca – um determinado público. Somente em São Paulo são mais de 80 bairros, entretanto, nossa experiência no Caronetas indica que 80% dos funcionários estão em 20 bairros, ou seja, uma análise corporativa de transporte poderia indicar a melhor localização para a sede. Isso do ponto de vista empresarial. Já o poder público poderia estimular a criação de estacionamentos em locais próximos a terminais e estações de metrô; trabalhar alíquotas que incentivem a instalação de empresas em zonas “dormitório”, incentivar empresas a investir em segurança e em calçadas no seu entorno, entre outras ações. Já a empresa muitas vezes não considera que o custo total de transporte – fretados, peruas, vale-transporte, vagas, carros corporativos e táxis – consome frequentemente muito mais que 6% do faturamento. Notamos que normalmente não há um “gerente de transportes” que cuide desse custo. Aplicativos como o WiiMove podem ajudar a gerenciar esse custo, mas é preciso ressaltar o montante de dinheiro desperdiçado em vagas não utilizadas, fretados mal ocupados e táxis não compartilhados, entre outros.

Uma das principais atividades da Virada da Modalidade será o Desafio Multimodal. Em que consiste? Quais insights pretendem transmitir à população por meio dessa ação?

O Desafio Multimodal não é uma competição, é um experimento de mobilidade. Convidamos os usuários de diversas empresas a experimentarem ir ao trabalho utilizando pelo menos três modais diferentes, definidos pela nossa equipe. Os resultados são muito interessantes, e a experiência dos últimos anos atesta uma informação bem simples e quase óbvia: cada origem e cada destino são únicos. O que isso quer dizer? Que o táxi que está disponível nos Jardins não está tão acessível em Poá, onde aplicativos é que resolvem a maioria das chamadas; que perder o embarque em um ônibus em certos locais pode gerar um impacto de tempo de 1 hora, enquanto que em outros temos abundância de linhas; que achar uma estação de bike ou andar a pé pode ser mais rápido do que pegar o ônibus ou o carro em determinados horários – enfim, as pessoas passam a analisar outras alternativas que desconheciam ou desconsideravam. A carona, por exemplo, pode ser considerada um ônibus hipercompacto, confortável, eficiente e bem ocupado quanto atinge cinco passageiros, e, para um cadeirante, pode ser a melhor opção.

O que o público pode esperar de toda a experiência proporcionada pelos diversos eventos que acontecerão  na Virada da Mobilidade, entre 17 e 23 de setembro?

Cada evento terá uma abordagem especifica: Teletrabalho, Mobilidade corporativa, Inovação, Experimentação, Empatia. Todos são convites à reflexão e à mobilização individual ou empresarial.

Uma mensagem ao público.

Estar simplesmente parado no trânsito significa fazer parte dele. Participem, reflitam e sejam agentes de transformação.

 Fique por dentro!

Clique aqui e confira a programação completa da Virada da Mobilidade 2017