Desengarrafando o seu dia a dia

Ontem, na Virada da Mobilidade, o jornalista e escritor de Como Viver em São Paulo sem Carro, Leão Serva, o editor da Época Sociedade, Marcelo Moura, e o fundador do Caronetas, Marcio Nigro, conduziram a roda de conversa “Desengarrafando o seu dia a dia” na UniItalo em Santo Amaro.

A atividade contou com a presença de quase 100 estudantes da Universidade, que se dispuseram em formato de arena, ao redor de um tabuleiro de xadrez em tamanho real cercado por árvores, que compunha o cenário verde e charmoso.

Marcio Nigro abriu a roda contando do Desafio Multimodal, atividade que acontece na Virada da Mobilidade e propõe que seus competidores testem mais de um meio de locomoção para chegar a um destino comum. Explicou que as pessoas que participam dessa atividade se surpreendem com a rapidez que essa oferta de modais oferece: “as pessoas não precisam só pegar um ônibus de porta à porta. É preciso descobrir quais modais podem compor o nosso dia a dia”, concluiu Nigro.

Quando Leão Serva foi apresentado pela gestora ambiental do programa EcoÍtalo da universidade, Milena Beatrice, recebeu sua primeira pergunta da noite: “É possível, afinal, viver em São Paulo sem carro?”, ao que o escritor do livro homônimo respondeu com outra pergunta: “quantas pessoas aqui vieram sem carro?”, recebendo como resposta mãos levantadas de algo como 90% da plateia. “Então. Me parece possível, certo?”.

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Alunos da Uniitalo assistem à roda de conversa “Desengarrafando seu dia a dia”

O livro, que existe desde 2012, ajuda a desmistificar o transporte público como um serviço ruim, ineficiente. “Nosso objetivo é mostrar que pessoas legais, trabalhadores e até globais administram outras formas de locomoção. Já tive um entrevistado que contou ‘poxa, hoje em dia eu posso comer uma caixa de Bis sem culpa porque eu andei o dia todo’. Cada um com as suas prioridades…”, disse, arrancando risadas da plateia. Ainda que descontraído, Serva procurou mostrar as vantagens de não andar de carro na cidade. “Hoje eu estudo no transporte público. Posso ir lendo o caminho todo. E talvez ainda chegue mais rápido que o carro. Afinal, muitos anos atrás, a velocidade média da cidade era de 35km/h. Hoje é de 7km/h”.

Marcelo Moura, da revista Época Sociedade, ressaltou a importância de se empregar, em uma cidade como São Paulo, a teoria de alocações estáveis. A teoria permite combinar necessidades com demandas a partir do cruzamento de dados. “É algo relativamente simples nos dias de hoje e já é usado por aplicativos de paquera. Se usarmos essa prática para melhorar a logística de São Paulo, será muito melhor para nós”, explicou. O impacto desse tecnologia para a mobilidade se destaca na carona, como já acontece com alguns apps e no Waze, que teve impacto transformador: “por que as pessoas não podem sugerir, ali, o caminho mais agradável, mais arborizado? Isso melhora a qualidade de vida das pessoas, fazendo da mobilidade algo mais agradável”. Para Moura, as soluções estão dadas. “Moramos em uma cidade com 12 milhões de habitantes. Com certeza alguém vai ter o que eu procuro e vice e versa, basta sistematizar isso”.

Ao fim, os presentes dialogaram com os palestrantes e colocaram uma série de questões, perguntando sobre referências de estudos em mobilidade, onde achar exemplos de modelos de transporte bem sucedidos mundo afora, como otimizar o trajeto casa-trabalho-faculdade, como atrair a atenção do poder público para a periferia, entre outras indagações. Foi uma noite produtiva, que questionou paradigmas há muito tempo estabelecidos, propondo novas formas de se locomover, colocando em pauta o preconceito contra o transporte público e o modo de se relacionar e de pensar a cidade.

Diário de uma Virada – o fim de semana

A Virada começou num sábado de muito sol com várias atividades na rua e iniciativas criativas e inovadoras.

A primeira atividade de todas, o Desafio Multimodal, reuniu quatro grupos animados que competiram para chegar a um mesmo destino, o Conjunto Nacional. A tarefa parece simples, mas teve que ser cumprida com uma condição: cada grupo tinha que usar ao menos 3 diferentes modais de transporte no trajeto.

Advindas do Parque Villa Lobos, da Cantareira, do Parque Ecológico do Tietê e do Guarapiranga, as equipes chegaram até a Avenida Paulista depois de usarem ônibus, bike, metrô, trem e até patinete! Quem participou da atividade se surpreendeu com o resultado, percebendo que usar mais de um modal para chegar a um destino pode tornar a viagem mais rápida.

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Fotos e vídeo (abaixo) do Desafio Multimodal

 

Depois do Desafio, no período da tarde, a Virada contou com duas atividades para crianças: a Criativismo City, no Vale do Anhangabaú, e os Palhaços sobre Rodas, no Minhocão. Lúdicas e educativas, as duas ensinaram as crianças a respeitarem a sinalização do trânsito, as ciclovias, as placas e as faixas de pedestre e de carros. A primeira delas, fez as crianças absorverem os ensinamentos de trânsito, na medida em que elas simulavam automóveis e vestiam carros de papelão e eram, elas mesmas, os próprios semáforos da cidade. No início da atividade elas se chocavam, de brincadeira, umas com os outros. Mas, ao fim da atividade do Criativismo, passaram a respeitar os sinais do semáforo, as faixas e, inclusive, os pedestres.

 

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Dupla de Palhaços sobre Rodas alegram a Paulista, chamando atenção para os perigos do trânsito

 

A dupla dos Palhaços sobre Rodas, Jupter e Trapino, conseguiu mesclar o tom engraçado com a conscientização a respeito do trânsito. Eles ensinaram às crianças, e adultos, regras básicas de convivência, principalmente entre motoristas e ciclistas, variando entre humor e dados técnicos (no ano passado morreram 47 ciclistas). Na frente do Parque do Trianon, em meio ao movimento de um domingo quente de São Paulo, as crianças observaram a esquete concentradas, entrando no universo dos Palhaços com muita facilidade e naturalidade, ainda que eles estivessem tratando de questões tão sérias como acidentes e mortes no trânsito.

Durante a noite de sábado, também no Vale do Anhangabaú, a Virada ficou muito animada ao som de Vertical Jungle e Cúpula Soul. As duas bandas retrataram as intempéries do cotidiano, problematizando a dificuldade de viver em uma cidade complexa e com periferias mal conectadas, como São Paulo, conscientizando as pessoas sobre a convivência e cuidado que temos que ter com os espaços públicos. Com bancos de balanço e luzes coloridas ao fundo, os músicos chamaram atenção para a mazelas e belezas da cidade, destacando que um dos primeiros passos para ser um agente de mudança, em São Paulo, é refletir e ajudar a melhorar a mobilidade urbana da cidade.

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Banda Vertical Jungle tocou no Vale do Anhangabaú. Suas letras chamavam atenção para a intensidade de São Paulo e outros aspectos do cotidiano

Ressignificando espaços públicos de São Paulo

Quem esteve em São Paulo durante a inauguração da ciclovia na Avenida Bernardino de Campos, que veio acompanhada do fechamento da Paulista, da abertura do Mirante 9 de Julho e do novo espaço gastronômico ‘Cozinha SP’ na Praça dos Arcos, no dia 23,  viu um monte de espaços públicos serem ressignificados na cidade.

Segundo o prefeito Fernando Haddad, a ideia é que as 32 subprefeituras de São Paulo estabeleçam que uma de suas ruas sejam fechadas, aos domingos, para passeio. Os primeiros testes foram feitos em regiões centrais, mas a política pública também será instituída na periferia, “que é onde mais faltam áreas de lazer”, afirmou o prefeito. Por telefone, a Secretaria de Comunicação da Prefeitura nos disse que a política ainda está sendo avaliada, mas que seu relatório deve ser divulgado assim que o estudo for consolidado.

Pode ainda ser cedo pra falar, mas já deu pra sentir uma mudança no astral dessas regiões da cidade. São Paulo, que sempre foi tida como hostil, parece ter mudado depois dessa ocupação de espaços públicos e um aumento no transporte ativo – o ciclismo, a caminhada, a corrida. Se você não esteve em nenhum desses lugares, basta ver as fotos: crianças aprendendo a andar de bicicleta, pessoas tomando Sol em plena Paulista, bandas tocando ao ar livre, transeuntes experimentando a comida da primeira cozinha comunitária da cidade e, no geral, cidadãos aproveitando a via pública para curtir o domingo. Quem não tem praia… tem Avenida Paulista!

Além da melhora do “astral” da cidade, o bom proveito de espaços públicos é muito importante para rompermos com o paradigma de fragmentação da cidade, uma noção adquirida depois do transporte motorizado individual ter dominado a locomoção viária. A ocupação das vias públicas volta a colocar na pauta o direito à cidade que, apesar de ser um direito civil como qualquer outro, caiu no esquecimento desde que os grandes centros urbanos cresceram e o desenvolvimento urbano e econômico passou a estimular o uso do carro individual e espaços fechados.

Vamos discutir a ocupação de espaços públicos (e mais várias outras pautas) durante a Virada! Acompanhe nossa programação e proponha a sua atividade.

 Participe também do Desafio Multimodal no dia 19/09. O desafio tem por objetivo estimular a intermodalidade na cidade. A proposta é fazer com que o usuário experimente utilizar no mínimo 3 modais diferentes para chegar a um destino comum partindo das 4 diferentes zonas da cidade. Inscreva-se aqui!