Imaginando uma cidade mais democrática e sustentável. Por que não?

A corrida como meio de transporte, transformar o Tietê em parque, ocupar espaços públicos com música e ruas verdes. Já Imaginou?

As rodas de conversas no Armazém Cultural, durante a Virada da Mobilidade, trouxeram à tona vários assuntos diferentes, mas de igual importância para pensarmos cidades mais inteligentes e com uma melhor qualidade de vida.

Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”

Na segunda-feira, Silvia Cruz abriu a programação contando sobre o seu projeto da CorridaAmiga. A iniciativa, como o Bike Anjo, disponibiliza voluntários para instruírem pessoas que desejam usar a corrida como meio de transporte no dia a dia, mas ainda não sabem como. Silvia contou que descobriu esse modal quando fazia um estágio de doutorado na França e, depois, na Finlândia. “Lá eu descobri que as pessoas corriam pra se locomover. Achei a ideia o máximo porque você não perde tempo se locomovendo, uma vez que transforma o seu transporte em uma atividade física. Quando a gente quer realmente fazer, traspassamos todas barreiras que encontramos no caminho.”. Lá, no Armazém, deu as mesmas dicas que fornece aos corredores iniciantes, como a adaptação da mochila, o sinalizador para corridas noturnas, o que levar consigo entre outras. E contou uma história inspiradora de quando atravessou 200 quilômetros da Dinamarca, correndo, em apenas 4 dias. “Essas experiências me fizeram entender o que é a utopia. Acredito que ela seja nosso alvo direcional, a estrada para aquilo que a gente acredita”. E terminou com uma citação que a inspira, de Rosa Luxemburgo, que diz: “quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”.

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Silvia Cruz, da CorridaAmiga, explicou como utilizar a corrida como meio de transporte

Permacultura e música urbanas

Em seguida, na segunda roda de conversa do dia, Henny Freitas contou sobre a sua experiência com permacultura, conscientizando os presentes de que, se consumíssemos alimentos que nós mesmos produzíssemos e plantássemos, evitaríamos um transporte cujo preço é caro — não só em termos monetários, mas para o ambiente, porque exige a criação de estradas, importação coisas, o que gera uma mobilidade insustentável. Jornalista e permacultora, Henny compartilhou conosco suas experiências de viagens e passou uma mensagem de conscientização de otimizando a nossa mobilidade conseguimos evitar os desperdícios gerados pela indústria.

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Tchello e Henny falam sobre como atitudes individuais impactam o coletivo

Dividindo essa mesa, chamada “atitudes individuais com impactos no coletivo”, estava Tchello, um fotógrafo andarilho que virou quase um arquétipo urbano, sendo conhecido em muitos lugares de São Paulo por caminhar com sua caixa de som ambulante, chamada Xana. Contou sua história e mostrou como sua simples ação de caminhar tocando música, algo aparentemente fugaz, gera reações interessantes e, o mais importante, uma ocupação significativa dos espaços públicos. “O legal de levar um “lounge portátil” é que eu ja fui adotado por uma série de pessoas que gostam de usar o som na rua — coletivos, indivíduos, crianças. E isso me fez aportar em lugares super legais como, por exemplo, o Parque Augusta”. Contou que a sua iniciativa já até gerou um movimento de sucesso chamado o Buraco da Minhoca, que acontecia no túnel que liga a Praça Roosevelt ao Minhocão, acesso que fica fechado pela noite.

 Ruas verdes, cidades colaborativas e um parque no Rio Tietê

Na quarta-feira contamos com três rodas de conversa. A primeira, de Augusto Anaes, era sobre seu projeto Rede Verde SP. Arquiteto e urbanista, Augusto desenvolveu a ideia de interligar parques e praças da cidade com ruas verdes, todas, arborizadas. Essa ação seria feita em vias locais, no canteiro central delas, com um sistema inteligente de captação de águas de chuva e espaço o suficiente para estimular um local de convivência e a implementação de ciclovias. Sua pesquisa, muito bem elaborada, leva em consideração o sistema de transporte e ônibus e metrô, a topografia dos bairros, e levanta muitos dados e critérios em consideração para escolher quais seriam as ruas verdes. Tendo como base um mapa de ruas contíguas, ele mostrou várias opções de trajetos para realização dessas conexões, ressaltando que o ideal seria contar com a ajuda do poder público e participação massiva da sociedade para escolher quais são as ruas nas quais deveria ser aplicado esse modelo. “É quase uma colcha de retalhos. Estou propondo um sistema para articular parques e praças, formando uma rede única de áreas verdes para a cidade, estimulando a ocupação dos espaços, a qualidade do ar e, consequentemente, de vida”.

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Augusto Anaes expôs seu projeto Rede Verde SP, que procura interligar parques e praças com ruas arborizadas na cidade

Adriano Ortolani, o segundo palestrante da noite, apresentou o projeto Cidades Colaborativas, um guia que procura reunir uma centena de iniciativas que trabalham com consumo colaborativo no Brasil. Sua pesquisa mostra que, daqui 10 anos, esse tipo de economia irá arrecadar R$ 350 milhões, mas que esse mercado é ainda muito incipiente no Brasil. Segundo Ortolani, a grande estratégia do compartilhamento está na questão da mobilidade, porque é a área que mais sugere alternativas colaborativas hoje. A partir do guia eles desenvolveram uma plataforma para reunir essas iniciativas online, onde todo mundo pode sugerir a inclusão de seus projetos, se estes atenderem seus preceitos básicos.

A última roda de conversa do Armazém Cultural foi ministrada pelo antigo secretário de Cidadania do Ministério da Cultura, Célio Turino. Historiador, escritor e gestor de políticas públicos, Célio ressaltou a importância de ressignificarmos os espaços públicos da cidade. Contou como São Paulo era nos anos 30 e 40, lembrando que a várzea do Tietê era um parque enorme o qual todos poderiam usufruir. Citou vários outros locais da cidade que foram destruídos por causa da falta de planejamento urbano, atentando para a importância de voltarmos a ocupar esses lugares como, por exemplo, o Parque Dom Pedro. “Hoje esses lugares poderiam ser readaptados, reincorporadas como parques. As vezes pode parecer fantasioso, porque é difícil imaginar como recuperar a várzea de um rio poluído como esse. Mas seria incrível e democrático, uma vez que esse rio atravessa a cidade. Não seria um parque só localizado em uma região. Não é impensável. Seul também tinha empestiado seus rios e os revitalizou. O Tâmisa também era poluído, como o Tietê. Aqui também poderia acontecer”.

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Célio Turino falou sou a importância de ressignificarmos e ocuparmos os espaços públicos

Já imaginou?

A quarta-feira fechou um ciclo de debates sumariamente importantes para pensar a mobilidade em São Paulo. Foram instrutivos, inspiradores e ajudaram e repensar a cidade, dando força de vontade para os presentes de ressignificar os espaços, melhorar a qualidade de vida e tentar levar essa experiência para fazer algo duradouro à sociedade.

Fotos: Priscila Pacheco/WRI Brasil

Corra – literalmente – para o trabalho!

Você já se imaginou correndo — literalmente — para o trabalho, academia ou qualquer destino? É o que promove a iniciativa da gestora ambiental Silvia Cruz, a CorridaAmiga. Um dos parceiros da Virada da Mobilidade 2015, ela vai apresentar, no Armazém Cultural, uma nova forma de se locomover em São Paulo hoje, dia 21/09, às 18h.

Silvia, que usava a corrida para se exercitar desde 2010, descobriu que é possível fazer da atividade um meio de transporte quando foi estudar no exterior. Na França e na Finlândia, ela descobriu que seus colegas usavam a corrida para ir e voltar do trabalho e incorporou a iniciativa no seu dia a dia.

Aqui as pessoas correm meia maratona no parque, mas acham coisa de louco ir correndo pro trabalho!”, comenta. “Depois que voltei para o Brasil, pensei: se as pessoas usam isso lá fora, por que não disseminar essa prática aqui?”.

Foi assim que começou a CorridaAmiga. Inspirada no modelo do Bike Anjo, a iniciativa ajuda e orienta as pessoas que querem ir correndo ao trabalho com o mesmo modelo de voluntários. O iniciante faz seu primeiro trajeto auxiliado por alguém da CorridaAmiga, geralmente em um fim de semana, afim de descobrir as melhores rotas para chegar ao seu destino. “Os voluntários vão ensinar como usar a mochila na corrida, a logística da roupa, entre outros macetes importantes”.

Além do trajeto acompanhado, Silvia sugere que os adeptos da corrida como meio de transporte leiam o Manual de Deslocamento Ativo para obter mais dicas sobre esse modal. “Uma sugestão, por exemplo, para as pessoas que não têm vestiário no local de trabalho, é que cheguem uns 40, 30 minutos antes para dar tempo de resfriar o corpo e não ficar suando”. O Manual também dá instruções sobre o que fazer em dias mais secos e quentes, a respeitar a sinalização, ter atenção às calçadas, etc. “Gosto de dizer que correr na cidade é o mesmo que fazer uma corrida de aventuras”, conclui.

Com cada vez mais adeptos, a CorridaAmiga já está presente em 15 cidades do Brasil, possui mais de 100 voluntários e 100 corredores, que correm, em média, de 5 a 10 km por dia. “Se a pessoa trabalha muito longe, ela pode misturar os modais: ir de transporte público até uma parte do caminho, e terminá-lo correndo”, ensina.

Essas e outras dicas, informações e um pouco mais da história da CorridaAmiga você assiste hoje, segunda-feira, às 18h no Armazém Cultural. Lá, Silvia vai contar sobre a sua experiência e irá nos ajudar a refletir como mudar os paradigmas de locomoção de São Paulo, aprimorando, otimizando e repensando a mobilidade urbana da cidade.

Roda de Conversa I: Corrida Amiga
18h
Armazém Cultural – Rua dos Cariris, 48, Pinheiros