Chega de Assédio no Transporte Público: Um debate entre Governo e Sociedade Civil em busca de uma cidade mais justa e democrática

O último debate da Virada da Mobilidade, sobre assédio sexual no transporte público, foi construtivo, complexo e inflamado. Fechando um ciclo importante de conversas, despertou o debate sobre mobilidade dentro da sociedade civil e criou um diálogo forte e contínuo com o governo e as empresas a respeito do tema.

A mobilidade é um veículo para cidades mais democráticas, justas e acessíveis. É por isso crítico aumentar esse diálogo e levantar as questões como: o que é mobilidade? Para quem? Como ela deve ser imaginada e implementada?

Pensando nisso, recebemos, na última sexta, 25, o grupo Chega de Assédio, o chefe de gabinete da SPTrans, Ciro Biderman, a rapper Luana Hansen e a jornalista do El País, Marina Rossi, para discutir a violência sexual que as mulhueres sofrem diariamente no transporte público, como educar a sociedade a esse respeito, pressionar o poder público para assumir o problema e ajudar as vítimas que padecem com as agressões diariamente.

As representantes do Chega de Assédio, que surgiram originalmente em um grupo do Facebook, elaboraram uma lista de demandas para cobrar do poder público segurança, divulgação de dados, mais treinamento aos funcionários, entre outros pedidos. “Abrimos a nossa lista pedindo que o poder público, tanto estadual quanto municipal, assumam que as vítimas existem. Quando a sociedade não assume que uma mulher foi violentada, ela é agredida pela segunda vez”, explicaram.

Além dessa demanda, pediram que o quadro de funcionários seja composto por mais mulheres: “Hoje, no metrô, só 10% do efetivo é de mulheres, enquanto que o contingente de passageiras é de 50%. Isso precisa mudar”.

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Hansen, que compõe músicas sobre a dificuldade e violência que mulheres de periferia e negras enfrentam no seu cotidiano, colocou a importância do poder público em treinar seus funcionários e colaboradores: “Não queremos um cartaz falando que a gente não tá sozinha. Esperamos um posicionamento verdadeiro. É preciso treinamento, inclusive com motoristas e cobradores, que também assediam as passageiras”, exigiu.

Biderman disse que é vontade da SPTrans educar motoristas e cobradores. A ideia é testar uma parte do corpo de funcionários para analisar qual a efetividade desse treino. Contou que, como acadêmico, fez uma série de pesquisas sobre equidade de gênero no mercado de trabalho e que se interessa em estimular sim a contratação de mais funcionárias mulheres para o serviço de transporte público. Isso também faz com que as passageiras se sintam mais confortáveis.

Vocês têm que facilitar a denúncia, também”, respondeu uma das integrantes do Chega de Assédio. “Uma companheira foi assediada por um cobrador e não conseguiu fazer a denúncia porque ela não tinha o número da placa do carro. E outra: o canal dessa denúncia não pode ser só a internet, ou o telefone. Vocês precisam colocar pontos de apoio à mulher pela cidade toda”, sugeriu. Pediram, também, que o treinamento seja mais inteligente e feito diretamente com os funcionários, ao contrário do que o poder público tem feito, que é treinar um setor mais gerencial que, por sua vez, transfere os ensinamentos aos demais.

A mediadora Marina Rossi (El País), depois de ouvir algumas demanadas e respostas da SPTrans, sugeriu que se criasse um Comitê dentro da Secretaria Municipal de Transporte voltado para discutir essa causa. Para ela, é preciso que esse grupo seja composto por mulheres que utilizam o transporte público todo dia, de diversas regiões da cidade. “Isso é mais interessante do que gastar milhões com propaganda e campanhas mal feitas. Coloquem a gente lá dentro. Acho que é um jeito de começar”, explicou.

Além desses compromissos, foi pedido que a SPTrans divulgasse os dados sobre a violência contra a mulher nos transportes de sua competência; agendasse uma reunião pública entre representates com poder decisório da Prefeitura e da Secretaria de Transportes e o grupo Chega de Assédio; e a autorização, por parte do poder público, de panfletagem e informativos sobre o tema em terminais de ônibus da cidade.

Ciro Biderman se compromoteu a levar as demandas para a agência e, num prazo de 15 dias, responder aos pedidos. Aguardemos os próximos encaminhamentos. Acompanhe a página da Virada da Mobilidade no Facebook para saber qual foi a resposta do poder público e para ficar por dentro das atividades que vão rolar no ano que vem.

Até a próxima!